quinta-feira, 5 de maio de 2011

Vou ali ser feliz: Dançando, por Lory Moreira

Desde que descobri o blog dessa geminiana eu virei fã. E sempre espero receber um email informando de algum post novo, como aconteceu hoje.
Não sei qual o segredo de Lory (eu sempre achei que as pessoas nascem com algum dom, e essa pessoa realmente nasceu com o dom da escrita), mas o fato é que ela sempre escreve coisas que estão na nossa cabeça e não sabemos como transcrever para o papel (opssss...para o blog, no meu caso). E é por isso que estou copiando o post dela pois, ela conseguiu colocar em palavras, de forma organizada, todos os meus pensamentos que estavam desorganizados. Aí está...leiam, releiam, pensem e repensem....pois, somos mais do que simples corpinhos belos!!!!


por Lory Moreira


Bailarina de dança do ventre vive em crise. Isso não é novidade pra ninguém. Não conheço nenhuma – amadora ou profissional, que não tenha vivido suas dúvidas e anseios em relação a sua continuidade na dança do ventre.
Eu não sou diferente. Desde que entrei nesse meio, tive inúmeras crises. Vontade de desistir, de largar tudo, de ir viver outras coisas. Muita coisa se passou por decepções externas, mas a maioria esmagadora dizia respeito às coisas que se passavam no meu coração.
Como boa geminiana, não deixei barato e, há cerca de 1 ou 2 anos comecei um processo de auto-investigação: porque tantas dúvidas? Eu amo ou não amo a dança do ventre?
Amo. E porque amo, duvido. Duvido da minha capacidade de conviver num meio social onde o mercado importa mais do que a arte e o padrão de movimentos aceito vale mais que a criatividade da bailarina.
Tudo isso é muito frustrante. É verdade. Mas porque amo não me dei o direito de desistir. As dificuldades estão aí para serem superadas. Sei que isso parece clichê, mas a vida é assim mesma: cheia de coisas óbvias que ninguém enxerga. Inclusive eu.
Comecei me perguntando: afinal, o que eu quero da dança?
Essa é uma pergunta que toda aluna, amadora ou bailarina profissional precisa se fazer porque é isso que vai determinar não apenas a forma como a gente se relaciona com nossa dança como o tipo de coisa que vamos buscar nela.
Nas minhas reflexões, reafirmei coisas que eu já sabia, além de descobrir elementos novos.
Reafirmei a certeza de que meu corpo tem suas limitações e potencialidades e passei a aceitá-las e entende-las melhor.
Reafirmei a minha crença numa dança mais criativa, expressiva e libertadora.
Descobri que isso, ao mesmo tempo em que me liberta de determinadas obrigações, me afasta da possibilidade de ser vista como uma profissional pelo meio da dança do ventre na minha cidade.
Reafirmei que a dança não é minha profissão, nem nunca será. Ela é meu complemento afetivo e existencial.
Descobri que posso buscar por uma qualidade de movimentação técnica mesmo não sendo profissional.
Descobri que as terminologias profissional e amadora são um grande engodo e pouco importa como você se denomina – a dedicação que você tem consigo mesma e com sua arte valem mais do que milhões de títulos.
Reafirmei minha crença de que a dança serve para emocionar as pessoas.
Descobri que adoro dar aulas, mas que posso viver sem elas.
Descobri que adoro estar no palco, mas que ele não é imprescindível  para meu processo de crescimento na dança.
Descobri que dançar em casa, sozinha, pode ser tão emocionante quanto dançar para um público. Ou até mais.
Reafirmei a minha vontade de continuar estudando e procurando por professoras que agreguem valor ao meu processo de aprendizagem.
Descobri que aulas particulares são excelentes pra meu desenvolvimento técnico.
Descobri que não morro de empolgação com o formato artístico de grande parte dos eventos de dança do ventre que são feitos na minha cidade.
Descobri que estava na hora de começar a formatar eventos de dança com base nas minhas crenças, nos meus desejos e no meu aprendizado enquanto bailarina.
Reafirmei minha certeza de que tenho amigas que são parceiras artísticas maravilhosas.
Descobri que não é fácil organizar um evento, mas que é muito gostoso e recompensador ver o resultado de seu trabalho.
Descobri que, como eu já desconfiava, evento de arte não dá dinheiro.
Descobri que eu posso ser muito feliz dançando o que me der na telha, no evento que criei, com a presença de um público especial, ainda que em número pequeno.
Descobri que é isso que quero com a dança: me realizar dançando aquilo que me emociona e levar um pouco desses sentimentos para quem estiver me assistindo e que, se for preciso, eu mesma invento esse espaço ou essa situação, porque minha crença de arte vai além da mera execução da dança. Minha crença de arte está no preparo das mínimas coisas que criam um ambiente propício para o deleite do público. Uma luz indireta, um aroma no ar, flores num jarro, boas-vindas na chegada, música ambiente, uma dança-carinho, um obrigado de coração. Porque cada pessoa precisa se sentir especial e eu descobri que sei fazer isso.
Outras crises virão. Não duvido disso. Mas, quando elas chegarem novamente, vou olhar para todas essas coisas e dizer: eu sei o que quero com a dança. Chega pra lá, crise. Como diria o Caio Fernando de Abreu, vou ali ser feliz e já volto.


Link para o blog de Lory Moreira:

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