
Como o arquétipo interfere no que se entende por sagrado e profano nos dias de hoje
Na realidade, sagrado e profano sempre foram extremos comuns que sempre coexistiram juntos. Um complementa o outro.Existem, entre os vãos destes extremos, aquelas pessoas que encaram o sagrado com reservas, com dúvidas, deboche ou indiferença.
Historicamente, vemos que se o sagrado é um ideal sublime e guardado, o profano é o oposto. O profano é tudo que não importa mais que seja sagrado. Trata-se de uma ruptura com a reverência e a sublimidade de uma herança considerada divina e altamente respeitável. A idéia do sagrado termina onde se inicia a idéia do profano.
Para os considerados pagãos do matriarcado, seu espaço e fé eram sagrados, mas para os povos invasores e dominantes eram profanos e bárbaros. Conceitos relativos imbuídos de uma identidade culturalmente imposta. Vejamos um exemplo sobre o profano em nossos dias a seguir.
Em 2001, o conservadorismo religioso egípcio virou notícia de manchete no Brasil. A associação de preconceito e moral em relação à manifestação artística da dança do ventre deu autoridade a uma espécie de “polícia moral” conhecida como Adab, para fiscalizar as bailarinas, a circular pelos hotéis e casas noturnas a fim de averiguar se as mesmas estavam cumprindo com o “código de bons costumes”, o que significava:
1 – Não mostrar as coxas;
2 – Não mostrar as costas;
3 – Não mostrar o ventre.
Tal restrição modificou completamente a plástica artística, e, muitas bailarinas, preferiram cobrir-se por completo para não arriscar a carreira e serem condenadas ao presídio – Folha de São Paulo 20/01, na reportagem de Paula Schimitt, “O Egito censura o ventre na dança do ventre”, p. A20.
Segundo a referida reportagem, no Egito, a cultura de bailarinas de dança do ventre estava desaparecendo. O registro de bailarinas era feito junto à Adab e não nos sindicatos, pois não havia representação sindicalizada para elas. E como as estrangeiras estavam proibidas de se apresentarem – pois, o que se esperava, era que se um estrangeiro chegasse ao Egito, ele gostaria de ver uma egípcia dançando, e não uma japonesa – a tendência era diminuir cada vez mais o número de bailarinas nativas, pois o fundamentalismo religioso ainda é um movimento muito forte e coeso no país.
De acordo com as informações da reportagem, haviam 5.000 bailarinas profissionais em 1957, e até a data da reportagem, existiam apenas 380 registros. “Os egípcios podem até ir ao show, mas vão sempre olhar as dançarinas com menosprezo”. “Enquanto a filha tem seis anos ou sete anos de idade, a mãe acha bonitinho vê-la dançar. Mas, assim que a menina cria corpo, a mãe proíbe a filha dizendo que aquilo é indecente”. São alguns dos depoimentos colhidos e publicados na reportagem. O preconceito pode partir até mesmo de ex-bailarinas.
O indecente na reportagem dá o sinal do profano, do não-religioso, do não-considerado.
Em contrapartida, a dança do ventre nasce no sangue das egípcias, assim como o samba nasce no sangue da brasileira, e principalmente no das mulatas. E o Egito ainda é o pólo mundial exportação da técnica. Esta ambivalência ou dicotomia é estudada pela conferencista holandesa Karin van Nieuwkerk, que desenvolveu um estudo sobre a influência do fundamentalismo islâmico nos entretenimentos do Egito, podendo ser acessado originalmente, em sua formatação completa, sob o título “An hour for God and an hour for the heart”: Islam, gender and female entertainment in Egypt, no link ESTUDO DE KARIN VAN NIEUWKERK ou parte deste trabalho no link do google books sob o título “A trade like any other: female singers and dancers in Egypt”:
Sua pesquisa revelou que a música e a dança são proibidas segundo as restrições religiosas, sendo que as mulheres que escolhem este caminho por profissão, estão escolhendo muitas vezes um caminho de vergonha.
A rígida adesão às leis islâmicas proíbe as mulheres de trabalhar com entretenimentos, quer seja dançando, quer seja cantando. Especialmente as mulheres, são vistas como imorais por trabalharem com entretenimentos, são considerados haram, pecado.
Mas, embora o discurso religioso restrinja a participação feminina e a religião certamente influencie as atitudes do povo egípcio em relação à arte e à diversão, segundo Karin, o Islã não é a força mais importante na vida dos egípcios. Muitos ainda mantêm “uma hora para Deus e outra para o coração”.
De acordo com a maioria das pessoas entrevistadas por ela, a religião não exclui o divertimento, eles podem coexistir lado a lado. Segundo um egípcio entrevistado: “Se os egípcios ouvem uma boa música, a primeira reação de admiração é dizer ‘Allah!’ Então, se nós invocamos o nome de Deus, como isso pode ser Haram?”
Karin destaca que a sociedade egípcia vem recebendo a crescente influência do fundamentalismo religioso desde 1970, porém, que a agitação religiosa contra os entretenimentos públicos vem de longa data. Começou no penúltimo século, em meados de 1930 e no final dos anos 40, evidenciando também um despertar religioso desfavorável para divertimentos. É até mesmo comum, muitas bailarinas viverem entre a culpa e o trabalho. Algumas bailarinas chegam a orar para se purificarem depois que dançam, na esperança que Deus julgue as pessoas pelo que elas são, e não por suas atividades profissionais.
No outro extremo, encontramos exclamações como as que se seguem:
“Os fundamentalistas dizem que fazemos coisas contra nossa religião, mas nós comemos dela (dança). Eu crio e educo minhas crianças através dela (dança). Então, que eles providenciem para nós um outro trabalho, com o suficiente para pagar a escola e outras despesas para meus filhos. Eu luto por eles.”
“É fácil para eles falarem, eles têm melhores empregos. Talvez Deus facilite as coisas para eles, mas eu sou uma entre aquelas que tiveram que ganhar dinheiro da dança.”
Ao entrevistar um sheikh sobre as danças folclóricas femininas, cujas danças cobremm mais o corpo do que a dança do ventre, Karin questionou se este tipo de dança seria “menos haram”, ele respondeu: “Não, elas também movem seus corpos.” Então, ao perguntar por que a dança masculina não é haram, obteve como resposta: “O corpo do homem não é vergonhoso, e não pode excitar.” O que fez Karin concluir que o corpo feminino possui uma conotação exclusivamente sexual para os religiosos: “O corpo de um homem dançando está fazendo um trabalho, o corpo de uma mulher dançando está movendo instintos sexuais.”
Nestes termos, Karin conclui que a permissividade para as performances femininas depende da extensão que ela provoca na audiência masculina. A voz feminina tem mais poder para excitar e o corpo para “tentar” ainda mais a audiência, e esta percepção distorcida torna qualquer performance feminina uma atividade sexual. E o sexo fora do contexto do casamento é uma grave sina neste país. A profanação pode ser considerada aqui como o ato de inferiorizar o que é sagrado para o outro.
Mas o discurso religioso é também ambivalente em suas atitudes em relação aos entretenimentos. Eles se dividem de um lado com a visão de que o corpo feminino é naturalmente sedutor e que são pecaminosas as atividades que advêm do seu uso. De outro lado, eles se consideram como pessoas respeitáveis, negando qualquer aspecto vergonhoso de suas profissões. Mas concordam com a maioria dos egípcios, que na vida diária, deveria ser “uma hora para Deus e uma hora para o coração.”
Texto original em: Geometria Corporal Expressiva na Dança Oriental
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