sexta-feira, 3 de julho de 2009

Como funcionam as Pin-Ups por Sílvio Anaz

Texto original em: Como Tudo Funciona


Introdução sobre pin-ups

As pin-ups mostraram o poder das mulheres muito antes do feminismo e da revolução sexual. Nas décadas que antecederam o surgimento desses movimentos libertários dos anos 60, a ilustração e a fotografia de garotas atraentes ou famosas já revelavam os primeiros sinais da liberação feminina, ao mostrar o poder do corpo e da sensualidade da mulher na cultura popular.

Pin-up
©iStockphoto.com/Christine Balderas/Konstantin Tavrov fotomontagem ©2008 ComoTudoFunciona/Geisa C. Souza
O que começou como ilustrações do poder de atração das mulheres evoluiu para a transformação das pin-ups em personagens de carne e osso

Essa visão das pin-ups, que se opõe a uma percepção tradicional, é o resultado de novas opiniões e estudos sobre o fenômeno, como o desenvolvido por Maria Elena Buszek no livro “Pin Up Grrrls”. Uma visão que tem mostrado as contradições entre a imagem das pin-ups como criações masculinas e objetos sexuais e ao mesmo tempo como representação da liberação feminina, da elevação do prazer sexual da mulher e da expressão de sua beleza e desejos.
Num universo dominado pelos valores masculinos, as pin-ups (e outras representações artísticas femininas, como as femme fatales ou as vamps) usaram da sexualidade, a principal arma ao seu dispor, para se contrapor ao poder patriarcal e controlar os homens. Esse fenômeno começou com o aumento da influência da burguesia, o surgimento das modernas técnicas de reprodução na imprensa e a invenção da fotografia. Fatores que possibilitaram a popularização da sensualidade feminina como um produto de consumo.

No decorrer do século 20, o fenômeno evoluiu em diferentes manifestações nas artes. Uma delas misturou sensualidade e bom-humor e criou retratos de garotas com seios volumosos, cinturas finas, pernas longas e torneadas e rostos sensuais. Esses retratos, por terem sido feitos originalmente para serem pendurados nas paredes, e por extensão as garotas que serviram de modelos para eles passaram a ser chamados de pin-ups.
Mas, as pin-ups não se limitaram a ficar atrás de portas e em paredes e saíram dos retratos e caricaturas para invadir o cinema e outras manifestações artísticas. A atriz Marilyn Monroe tornou-se uma das mais famosas pin-ups de todos os tempos. Além de ser um símbolo do sex-apeall no cinema, ela foi imortalizada na cultura pop nos retratos de Andy Warhol e em suas fotos na revista Playboy.
Pin-up
Divulgação
Dita Von Teese em campanha publicitária de lingeries da marca Wonderbra
Antes criadas e retratadas unicamente pelas mãos masculinas, muitas pin-ups assumiram nas últimas décadas o controle de sua própria imagem e estilo. Uma das mais ousadas é a modelo e atriz norte-americana Dita Von Teese, ex-esposa do polêmico roqueiro Marilyn Manson. Conheça nas páginas a seguir a história e algumas das mais famosas pin-ups e seus criadores.

História das pin-ups girls

O artista plástico peruano Alberto Vargas (1896-1982) praticamente criou o conceito pop das pin-ups. Desde sua chegada a Nova York em 1916 ele ficou fascinado pela beleza e estilo das garotas americanas e passou a retratá-las. Nos anos 40, a revista Esquire publicou um calendário com as garotas criadas por Vargas (Varga Girls) que virou um sucesso imediato. As garotas e o artista tornaram-se conhecidos mundialmente e, durante os anos da Segunda Guerra Mundial, as pin-ups de Vargas viraram símbolos patrióticos e estímulo aos soldados americanos. Após uma temporada bem-sucedida na Esquire, Vargas, que teve como modelos Marilyn Monroe e Ava Gardner, tornou-se o principal ilustrador da revista Playboy, que desde o seu lançamento em 1953 foi uma das maiores divulgadoras das pin-ups.
Pin-up
©iStockphoto.com/Heidi Anglesey
Com a vertiginosa ascensão da cultura pop e do american way of life nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra, a beleza e o estilo das pin-ups criadas por Vargas ganharam novas versões em diferentes estéticas e em outras culturas. O cinema – não só o americano, mas também o europeu – foi uma das manifestações artísticas que incorporou as pin-ups ao seu universo. Em Hollywood, destacaram-se atrizes como Marilyn Monroe e Jayne Mansfield, enquanto na Europa surgiram Sophia Loren e Brigitte Bardot. Em todas elas o padrão das pin-ups popularizadas pelas ilustrações de Vargas permaneceu: mulheres bonitas com seios volumosos, cinturas finas, quadris bem delineados, pernas torneadas e ar sensual. Além disso, tanto nas ilustrações e fotos das revistas masculinas como no cinema, o erotismo era um dos principais atributos das pin-ups.
Pin-up
Reprodução
Livro com as pin-ups criadas por Gil Elvgren. As pin-ups clássicas são mulheres bonitas com seios volumosos, cinturas finas, quadris bem delineados, pernas torneadas e ar sensual
Nos anos 50, surgiu a garota que se tornaria um ícone das pin-ups e da cultura pop. Bettie Page teve uma infância e adolescência de dificuldades em Nashville, nas quais passava o tempo imitando suas atrizes de cinema favoritas. Apesar de trabalhar como modelo desde os 20 anos de idade em San Francisco, foi somente quando se mudou para Nova York, com 27 anos, que Bettie entrou para a galeria das garotas mais sensuais ao virar modelo de fotógrafos como Jan Caldwell, H.W. Hannau e Bunny Yeager. Suas aparições na Playboy, em calendários, cartas de baralho, outdoors e vários outros produtos em situações provocantes a tornou a “rainha das pin-ups”.
Pin-up
©iStockphoto.com
Com o surgimento da Pop Arte nos anos 60 a fusão de pin-ups com a nova estética foi imediata. Os calendários, cartões e maços de cigarros que traziam as pin-ups eram elementos perfeitos para inspirarem os artistas pop. Primeiro, porque a Pop Arte fez uma crítica irônica da dominação que os objetos de consumo passaram a exercer sobre a sociedade e, depois, porque conceitualmente um dos objetivos da Pop Arte era o da transformação do vulgar em refinado. Assim, a imagem de Marilyn Monroe, por exemplo, foi imortalizada em quadros de Andy Warhol, o papa da Pop Arte. Além de Warhol, dois dos principais artistas pop a utilizarem as pin-ups em suas obras foram Roy Lichtenstein e Mel Ramos.
Pin-up
Reprodução
Sinalização de praia na Califórnia com pin-up girl
A partir dos anos 70 com uma maior liberalização dos costumes e o avanço da indústria da pornografia, as pin-ups perderam bastante do seu espaço, mas mantiveram-se no imaginário da cultura pop. O que começou como ilustrações para reproduzir a beleza estética e o poder de atração das mulheres, como forma de driblar os moralismos da época, evoluiu para a transformação das pin-ups em personagens de carne e osso, seja com as atrizes no cinema ou como modelos fotográficos. Em meados dos anos 80 há uma retomada da estética das pin-ups com uma atualização que incluiu elementos futuristas e fetichistas.
Criadores de pin-ups

Alberto Vargas (1896-1982): nascido no Peru, Vargas chegou a Nova York em 1916 e seus primeiros trabalhos foram cartazes para as peças teatrais na Broadway, nos quais já mostrou seu talento em retratar as belas atrizes. Desde os anos 20 criou várias ilustrações exóticas de nudez feminina, mas foi somente nos anos 40 ao trabalhar para a revista masculina Esquire que suas pin-ups girls tornaram-se famosas e populares. Nos anos 60 e 70, ele foi o principal ilustrador da Playboy e criou ilustrações de pin-ups que viraram verdadeiras obras primas.

George Petty (1894-1975): sua fama vem da série de pin-ups que desenhou para a Esquire de 1933 até 1956, que ficou conhecida como “The Petty Girl”. Suas garotas ficaram mais famosas ainda ao serem reproduzidas nos aviões de combate usados pela Força Aérea norte-americana na Segunda Guerra Mundial, incluindo o “Memphis Belle”, um B-17 conhecido como “fortaleza voadora”.

Gil Elvgren (1914-1980): muitos minimizam seu valor por o considerarem um artista muito comercial, mas é justamente pela intensa criação de pin-ups para campanhas publicitárias de produtos da Coca-Cola e da General Electric, entre outras marcas, que Gil Elvgren tornou-se um dos mais importantes criadores de pin-ups no século 20. Além do seu trabalho para publicidade, ele contribuiu com ilustrações para importantes revistas americanas, como a Cosmopolitan.

As pin-ups contemporâneas

A partir dos anos 80 o ilustrador japonês Hajime Sorayama surge com uma versão atualizada e futurista das pin-ups. Considerado um novo Alberto Vargas na história da ilustração de belas mulheres, o artista já teve suas pin-ups usadas em campanhas da Sony e da Levi’s, além de freqüentarem com regularidade as páginas da revista masculina Penthouse.
Pin-up
Foto: Adrian Benedykt / www.adrianbenedykt.com
No Brasil, o fotógrafo Adrian Benedykt tem se especializado em retratar o renascimento das pin-ups neste novo milênio. Em suas imagens (ou “cheesecakes”, como são chamadas as fotografias de pin-ups) a sensualidade, o mistério e o glamour das pin-ups tradicionais se misturam a uma atitude mais ousada das modelos.
Outra versão atual das pin-ups, mas com um apelo erótico muito mais intenso do que o das originais, aparece no site Suicide Girls (para maiores de 18 anos). Nele, modelos do mundo inteiro, que fogem dos padrões de beleza do universo fashion, adotam a pose de pin-ups nas fotografias e revelam um pouco de suas vidas. O sucesso do site já levou as pin-ups do Suicide Girls para participação no popular seriado televisivo CSI.
Pin-up
Foto: Adrian Benedykt / www.adrianbenedykt.com
A revista de quadrinhos Heavy Metal tem sido uma das principais moradas das pin-ups contemporâneas. Entre elas, estão as criadas pelo artista italiano Lorenzo Sperlonga. Nas últimas décadas, as mulheres também ingressaram no universo de criação das pin-ups. Entre os nomes femininos que se destacam estão as americanas Jennifer Janesko e Susan Heidi.
Pin-up
Reprodução
Livro da atriz e modelo Dita Von Teese,
uma das mais famosas pin-ups contemporâneas
Mais do que inspirar os artistas, as garotas que têm servido de modelos para pin-ups desde os anos 80 têm assumido uma postura mais ativa de construção e divulgação dessa imagem. Entre as mais famosas está a modelo, performance e atriz Dita Von Teese. Inspirada pelas mulheres fatais e pin-ups dos filmes hollywoodianos dos anos 30 e 40, ela recriou a arte do burlesco com suas performances sensuais e fetichistas. Fã confessa de Betty Grable, Marilyn Monroe e Rita Hayworth, Von Teese não se encaixa nos padrões de beleza das últimas décadas. Com seu estilo retrô, ela tem se mostrado uma musa elegante, sensual e provocativa.
O sucesso das ilustrações futuristas de Hajime Sorayama, das Suicide Girls e da modelo Dita Von Teese prova que as pin-ups estão novamente em alta na cultura pop (se é que um dia elas não estiveram). A atualização da representação de garotas sensuais e com glamour no novo milênio confirma que elas não são apenas uma forma de povoar o imaginário masculino, mas principalmente uma demonstração do poder da sexualidade e da beleza feminina na cultura.





Mais informações sobre pin-ups

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Fontes:
BUSZEK, Maria Elena. Pin-up Grrrls: Feminism, Sexuality, Popular Culture. Duke University Press, 2006.
BUSZEK, Maria Elena. Of Varga Girls and Riot Grrrls: The Varga Girl and WWII in the pin-up’s feminist history.
Em http://www.spencerart.ku.edu. Acessado em 30/10/2008.

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